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sábado, 26 de junho de 2010

AUSÊNCIA

SENTIMENTOS VELADOS
As coisas que não dissemos nem fizemos!
O gosto não saboreado, o prazer não sentido!
A desesperança do inatingível na distância tão perto!
O olhar discreto de relançe, a palpitação em suave crescer dos sentidos!
A alma em sofrimento contido, a esperança em elevado voo!
O pôr do sol no horizonte tão longe quanto as possibilidades do seu querer!
Seu coração, sôfrego, se entristece não pelo que quer ter, mas pelo que deseja entregar!
TUDO MUDA
Há uma cidade velha que se apaga, histórias que se diluem no tempo que faz tanto tempo!
Calçamento de paralelepípedos, num dia distante no passado, moderna tecnologia, hoje incômodo pedregulho simétrico de lento passar, redutor natural da ansiedade e da pressa desnecessária do imprudente condutor da carruagem sem cavalos!
Paredes centenárias com salas beirando as calçadas em ruelas curvas, substituídas pelo vidro, cores e amplitude vertical!
O velho que já prestou muitos serviços e já brilhou!
O novo que inicia a rotineira jornada dos séculos, que vai fazer história, brilhar, e depois ser também substituído por outro novo, na inexorabilidade do tudo que muda sempre!
AUSÊNCIA
Um não enxerga mais o outro!
Foi-se a magia, o carinho e a sensualidade da presença do outro!
O espírito distante, um olhando o norte, o sul o outro!
Na mesa, o silêncio da ausência presente, quebrado apenas pelo leve e bucólico recostar dos talheres nos pratos!
Um dia, repartiram sonhos, desejos, palpitações e esperanças!
Hoje, acomodada irresolução e enfado!
É um casal, como tantos, prisioneiro das suas impossibilidades!
APREENDENDO O HOJE
" O tempo é uma torrente impetuosa, como um rio que tudo carrega. Mal se vislumbra alguma coisa e ei-la que some. Surge outra, e já se vai também. " - Marco Aurélio (121-180), filósofo e imperador romano.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

JULGAMENTO

DIZER O QUE PENSA
O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998, que faleceu no último dia 18 de junho, era um homem que tinha a coragem de dizer o que pensava.
Quando falava, não era no plano da crítica do não gostar de algo ou alguém, do egoísmo, da inveja, do autoritarismo ou de outros abjetos motivos, como tanto estamos acostumados a ver à nossa volta.
Sua coragem em dizer o que pensava estava no plano das idéias, dos princípios, dos conceitos seculares, como no polêmico romance, supostamente herético, ' O Evangelho segundo Jesus Cristo ', no qual questiona dogmas católicos.
Achava também que o progresso, do ponto de vista técnico e tecnológico, desenvolveu a uma velocidade extraordinária, mas que no progresso moral andamos para trás.
Com um lendário pessimismo, tinha a tendência a ver o lado escuro das coisas. Era melancólico, sério e nunca foi um menino alegre, segundo suas próprias palavras, e ele só teve a consciência de ver o outro lado das coisas perto dos 20 anos, e de forma insólita: " Tinha a sorte de assistir em Lisboa a espetáculos de ópera do balcão superior, e à frente ficava o camarote real decorado com uma enorme coroa. Vista da platéia e dos outros balcões, era dourada. No entanto, vista de trás, não estava completa, era oca, empoeirada, com teias de aranha, e entendi que, para conhecer as coisas, é preciso dar-lhes a volta completa. Isto se tornou uma espécie de regra de vida e de algum modo contribuiu para meu pessimismo, pois as coisas vistas por trás normalmente são piores. "
JULGAMENTO
Exatamente iguais, na aparência e na idade, Tom Canty e Edward Tudor têm, entretanto, uma diferença: Edward é herdeiro do trono da Inglaterra, e Tom é um mendigo. Tom vive em cortiços e Edward em palácios.
Um dia, o destino intervém e ambos têm de viver, durante algum tempo, a vida do outro. Trocam de roupa e de papéis.
Um, habituado ao luxo, vai para a miséria, as doenças e a promiscuidade dos cortiços; o outro, do lixo, vai para a pompa, o luxo e as vaidades nos castelos.
' O príncipe e o mendigo ' é obra do escritor americano Mark Twain (1835-1910), publicada em 1882 e reflete o comportamento habitual do ser humano de julgar as pessoas pela aparência.
As roupas, os bens, os cargos ocupados são a prova inconteste das 'qualidades' da pessoa e vem determinar sua 'respeitabilidade' no meio social, enquanto a bondade, a generosidade, o respeito, a capacidade, o espírito solidário e um enorme elenco de virtudes encontradas nos verbetes dos dicionários, são de quase nula valia.
O que parece ser, em todos os agrupamentos humanos, de todos os tempos, vale muito mais do que realmente é!
JORNADA
" O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer. " - José Saramago (1922-2010), escritor português.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

FELIZES

UM SONHO
Ela tem um sonho, tal qual teve um dia o pastor Martin Luther King (1929-1968), que pagou com a vida os seus sonhos de liberdade contra o ilógico racismo.
Ela tem um sonho: andar na máquina do tempo, como nas obras de ficção do visionário H.G. Wells (1866-1946), escritor inglês tão importante quanto Jules Verne (1828-1905), raros homens adiante do seu tempo que imaginaram o mundo no futuro ainda distante como seria, e inspiraram inventores que viriam tornar reais suas idéias e visões de progresso humano.
Ela tem o sonho de voltar no tempo e 'visitar' as pessoas que passaram por sua vida, as pessoas de quem gostou e gosta, sem, entretanto, interferir em suas histórias, nos seus acertos e desacertos, pois, sabe que o passado é intocável. Sabe que o passado pode ser no máximo evocado, com alegrias e arrependimentos, mas que jamais poderá ser modificado!
E, então, ela 'visitaria', sem ir às suas intimidades, a história das pessoas amadas, os inventores, os músicos, os pintores e as personagens que 'moldaram' o mundo com sua inventividade e seus ideais sinceros.
Ela tem um sonho infantil!
É como visitar o País das Maravilhas!
É fugir do reto e rotineiro que cansa e não inspira, embora necessário!
É planar, voar pelo prazer de voar, fazendo da alma e dos sentidos os propulsores dos sonhos e da vida!
VUVUZELA
A Copa do Mundo de Futebol na África do Sul terá mais de três bilhões de expectadores, metade dos habitantes do planeta Terra, na maior festa e competição esportiva do mundo.
O território que hoje constitui a África do Sul foi descoberto por navegadores portugueses no século XV. Foi colônia holandesa e também foi conquistado pelos ingleses.
Lá aconteceu entre 1899 e a902, a guerra dos Bôeres (os sul-africanos descendentes dos holandeses) contra os ingleses. Participou dessa guerra, como correspondente de guerra, um jovem tenente inglês que viria se tornar anos mais tarde uma das maiores personalidades do século XX: o Primeiro-Ministro da Inglaterra, Winston Churchil.
Lá surgiu o nefando apartheid, segundo o qual as raças branca e negra deveriam desenvolver-se segundo suas próprias tendências em regiões separadas!
Lá nasceu também outra das maiores personalidades dos séculos XX e XXI e que viria a pôr um fim ao ignomioso regime segregacionista: Nelson Mandela que, mais do que um político, é quase uma 'divindade' para os sul-africanos.
Sua aura e seu prestígio entre outros líderes mundiais é unânime. O ex-presidente americano Bill Clinton, na Fundação
que leva seu nome, em Little Rock, sua cidade natal, no estado de Arkansas, tem no acervo do museu, fotos de Nelson Mandela, a quem o ex-presidente considera 'um homem impressionante.'
Nelson Mandela gritou sua vida pela liberdade!
A vuvuzela é o grito de liberdade dos felizes sul-africanos, gente otimista e dançante que tem entre seus nascidos três prêmios Nobel da Paz! Não é pouco!
FELIZES
" Felizes os felizes. " - Jorge Luiz Borges (1899-1986), escritor argentino.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

TRADIÇÕES

TRADIÇÕES
Diluem-se as tradições no rápido caminhar das décadas! Costumes milenares, seculares, antigos, são substituídos por novos, com novas formas que em nada lembram as antigas!
Outras pessoas, outros valores! Gente jovem, como que contestadora, sem raiz ainda, com história por fazer!
Constrói-se novos costumes, nem piores, nem melhores! São apenas novos costumes de novos tempos!
Homens, acontecimentos, feitos e celebrações, um dia relevantes e cheios de brilho, são esquecidos, ignorados ou, no máximo, transformados em verbetes de dicionário!
É o tempo que passa, aplaca os espíritos e embaça a memória!
COMPAIXÃO
A agressividade, suas causas e efeitos, extrapola os limites da psicologia para interessar também o direito, a sociologia e a política. O fenômeno da agressão atravessa a história desde as civilizações mais remotas.
É preciso muito pouco para que alguém se sinta 'ofendido' por causa da atitude de outro, e quanto mais inferior o nível de formação intelectual e a condição social, mais irracional será o 'espírito da ofensa.'
À agressão verbal ou à física, premeditada ou não, fatal ou não, segue-se a 'máscara' da humildade, do arrependimento ou da conveniente mentira do seu autor, excusando-se do seu ato irracional.
A midia reporta, diariamente, as irracionalidades do homem, que, por ironia, é definido pela antropologia, como animal racional.
" O homem é o lobo do homem " (Thomas Hobbes, pensador inglês em 1.588), e mais do que os fenômenos da natureza, ele preda o seu semelhante, num assustador e crescente varejo, com a pedofilia, o ciúme doentio, a rejeição na relação amorosa, os assaltos a pedestres e veículos, o ganho fácil em distorcido viés, a inútil altercação no trânsito, e todo um compêndio de motivos ignóbeis gerados pela natural arrogância de um ego que coloca a si próprio como centro verdadeiro do mundo, acreditando que o entorno seja formado de serviçais menores e seres inferiores!
O mundo, para sobreviver, precisa de menos predadores e de mais serenidade e compaixão!
FELICIDADE
" Nem a posse de riquezas, nem a abundância das coisas, nem a obtenção de cargos ou o poder produzem a felicidade e a bem-aventurança; produzem-na a ausência de dores, a moderação nos afetos e a disposição de espírito que se mantenha nos limites impostos pela natureza. " - Epícuro (341-270 a.C.), filósofo grego.